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Photo Credit: Roger Price

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Eles escolheram a ignorância

Investigadores de diferentes países europeus descrevem nesta carta que, apesar das diferenças significativas da situação da investigação científica nos seus respetivos países, existem fortes similaridades nas políticas de destruição da ciência que estão a ser seguidas. Esta análise crítica, em destaque na revista Nature e publicada simultaneamente em vários jornais de toda a Europa, pretende despertar os decisores políticos para que corrijam as orientações seguidas, e os investigadores e cidadãos para que defendam o papel essencial da ciência na sociedade.

Os responsáveis políticos nacionais de um número crescente de estados-membros, tal como os líderes europeus, perderam completamente o contacto com a realidade da investigação.

Eles escolheram ignorar os contributos cruciais de um setor forte de investigação para a economia, particularmente necessários nos países mais severamente atingidos pela crise económica. Ao invés, impuseram cortes drásticos nos orçamentos para a Investigação e Desenvolvimento (I&D) o que torna estes países mais vulneráveis, no médio e longo prazo, a futuras crises económicas. Tudo isto aconteceu sob a complacência das instituições europeias, as quais estão mais preocupadas com o cumprimento das medidas de austeridade por parte dos estados membros do que com a manutenção e consolidação das infraestruturas nacionais de I&D, que podem ajudar estes países a alterar o seus modelos de produtividade para um mais robusto baseado na produção de conhecimentos.

Eles escolheram ignorar que a investigação não se compadece com ciclos políticos; que o investimento sustentável, a longo prazo, em I&D é fundamental, porque a ciência é uma corrida de longa distância; que alguns dos seus frutos podem ser colhidos agora, mas outros podem levar gerações para amadurecer; que se não semearmos hoje, os nossos filhos não terão as ferramentas para enfrentar os desafios de amanhã. Ao invés, seguiram políticas cíclicas de investimento em I&D, com um único objetivo em mente: reduzir o défice anual para níveis que podem ser artificiais impostos pelas instituições financeiras europeias, alheios aos efeitos devastadores que esta orientação está a ter sobre o potencial da ciência e da inovação dos Estados-Membros e da Europa como um todo.

Eles escolheram ignorar que o investimento público em I&D é um atractor de investimento privado; que num “estado de inovação” como os Estados Unidos mais de metade do crescimento económico tem por base a inovação com raízes em pesquisas financiadas pelo governo federal. Ao invés, e irrealisticamente esperam que nos seus países a meta de 3% do PIB em investigação definida na Estratégia de Lisboa seja alcançada através do setor privado, ao mesmo tempo que reduzem o investimento público em I&D. Tal está em claro contraste com a queda do número de empresas inovadoras, e com a prevalência de pequenas e médias empresas familiares, sem capacidade de inovação.

Eles escolheram ignorar que a formação de investigadores implica tempo e recursos. Ao invés, protegidos pela diretiva europeia para a diminuição da força de trabalho no setor público, impuseram cortes drásticos às universidades e unidades de investigação. A junção de falta de oportunidades no setor privado e cortes nos programas de formação avançada de recursos humanos tem motivado uma “fuga de cérebros” do sul para o norte da Europa e para fora do espaço da União. O resultado é a perda irreparável de investimento em I&D e o agravamento das disparidades entre estados membros. Desencorajados com a falta de oportunidades e a incerteza inerente à concatenação dos contratos a termo certo, muitos investigadores estão a ponderar pôr termo à pesquisa, o que dada a natureza das atividades de investigação torna tal decisão uma jornada sem retorno possível. É a destruição de força de trabalho qualificada disponível para a indústria. Ao invés de diminuir o défice, esse êxodo está a contribuir para a criação de um novo défice: um défice em tecnologia, inovação e descoberta à escala europeia.

Eles escolheram ignorar que a investigação aplicada não é mais do que a aplicação da investigação fundamental, e não se limita à pesquisa com impacto no mercado de curto prazo, como alguns políticos parecem acreditar. Ao invés, nos níveis nacional e europeu,
há uma forte mudança de foco para os produtos comercializáveis, quando estes são apenas o “fruto maduro” de uma árvore de pesquisa intrincada. Mesmo que algumas das suas sementes possam germinar novas ideias, ao minar a investigação fundamental eles estão lentamente a matar as raízes.

Eles escolheram ignorar a forma como se faz a construção de ciência; que a investigação requer experimentação e que nem todas serão bem-sucedidas; que a excelência é a ponta de um iceberg que flutua sob uma equipa de trabalho. Ao invés, a política científica a nível nacional e europeu optou pelo financiamento de um número cada vez menor de projetos e investigadores bem estabelecidos, destruindo o portfólio diversificado que necessitamos para enfrentar os desafios sociais e tecnológicos de amanhã. Além disso, esta abordagem está a contribuir para a “fuga de cérebros”, que um pequeno número de instituições de pesquisa com maiores recursos alicia.

Eles escolheram ignorar a sinergia crítica entre ciência e educação. Ao invés, cortaram o financiamento da investigação em universidades públicas, diminuindo a sua qualidade global e ameaçando seu papel de promotoras da igualdade de oportunidades.

E acima de tudo, optaram por ignorar que a investigação além de servir a economia, também aumenta o conhecimento e o bem-estar social, inclusive daqueles sem recursos para pagar a conta.

Eles escolheram ignorar mas nós estamos determinados a recordar-lhes. Como investigadores e cidadãos formamos uma rede internacional para a troca de informações e propostas. E estamos envolvidos numa serie de iniciativas de nível nacional e europeu que se opõem fortemente à destruição sistemática de infraestruturas nacionais de I&D e que quer contribuir para a construção de uma Europa social da base para o topo. Apelamos a investigadores e cidadãos que adiram connosco a esta iniciativa. Não existem alternativas. Devemo-lo aos nossos filhos e aos filhos dos nossos filhos.

Amaya Moro-Martín, Astrophysicist; Space Telescope Science Institute, Baltimore (USA); EuroScience, Strasbourg; spokesperson of Investigación Digna (for Spain).
Gilles Mirambeau, HIV virologist; Sorbonne Universités, UPMC Univ. Paris VI (France); IDIBAPS, Barcelona (Spain); EuroScience Strasbourg.
Rosario Mauritti, Sociologist; ISCTE, CIES-IUL, Lisbon (Portugal).
Sebastian Raupach, Physicist; initiator of “Perspektive statt Befristung” (Germany).
Jennifer Rohn, Cell biologist; Division of Medicine, University College London, London (UK); Chair of Science is Vital.
Francesco Sylos Labini, Physicist; Enrico Fermi Center, Institute for Complex Systems (ISC-CNR), Rome (Italy); editor of Roars.it.
Varvara Trachana, Cell biologist; Faculty of Medicine, School of Health Sciences, University of Thessaly, Larissa (Greece).
Alain Trautmann, Cancer immunologist; CNRS, Institut Cochin, Paris (France); former spokesman of “Sauvons la Recherche”.
Patrick Lemaire, Embryologist; CNRS, Centre de Recherche de Biochimie Macromoléculaire, Universités of Montpellier; initiator and spokesman of “Sciences en Marche” (France).

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